domingo, janeiro 16, 2005


Femme actuelle

Não mais voltara a entrar na universidade desde a licenciatura. Sem que tivesse más recordações, mas embirrava com reuniões de eterna saudade.

Também não ouvia a música da sua adolescência. Ou lia os mesmos autores. Ou via os mesmos filmes. Quem fica preso aos usos de juventude cristaliza, costumava dizer. E não tinha paciência para poliedros.

Olvidara os velhos amores e nunca regressara a lugares onde fora feliz. Finito. Ninguém volta ao que acabou.

A sua crença no presente era tão forte que havia, de facto, esquecido o passado. Senhora de uma memória segura para números e factos de natureza profissional, raramente conseguia situar uma cara ou recriar uma época.

Por isso se apaixonou segunda vez pelo mesmo homem. Ele tinha um ar novinho, pouco usado e atraente. Um sorriso de criança a decorar uma boa cabeça. Continuava tão pegajoso e dependente como nos velhos tempos. Mas ela, claro, não se lembrava disso.

É o que dá obliterar o ontem: repetem-se os erros, mas com imensa frescura.